Enterro de dois minutos no Cemitério de Brotas surpreende jornalista

Cemitério Municipal de Brotas (Imagem: Reprodução / G1)

Em razão da pandemia do novo coronavírus, algumas medidas foram tomadas para impedir a propagação da doença em Salvador. Um exemplo disso foi a redução no número de pessoas nos enterros dos cemitérios da capital baiana. O jornalista Alexandre Lyrio, do Correio 24 horas, acompanhou um cerimônia de despedida e se surpreendeu com a rapidez do processo.

Confira a declaração do jornalista:

Quanto tempo demorou para a ficha de vocês cair? A minha caiu umas duas horas depois desses registros que eu e a fotógrafa Nara Gentil fizemos, no Cemitério Municipal de Brotas. Eu comia um bife à parmegiana que tirei do congelador. A garganta deu um nó e o estômago embrulhou. Mas eu sou um repórter. Repórteres querem ir até o fim em tudo.

Mastiguei o restante do almoço em dois minutos. Dois. Dois eternos minutos. Os mesmos dois minutos que transcorreram da retirada do caixão do carro da funerária até o túmulo ser lacrado com cimento. Dois minutos. O vídeo está aí para provar. Dois minutos para André se despedir da esposa, uma mulher de 42 anos que deixou dois filhos para ele criar sozinho. Dois filhos.

Dois filhos e uma mãe que tinha acabado de se livrar da UTI. Quase morre de covid-19. Ficou em casa com os netos e o restante da família. Apenas André e dois cunhados foram ao cemitério. Lembrei do presidente da República: “Esse é o destino de todos nós”. Ser enterrado em dois minutos não deveria ser o destino de ninguém.

Os olhos de André sobre a máscara é uma imagem que não sai da minha cabeça. Ele não tinha forças pra falar. Tentava responder às minhas perguntas e não conseguia. Os cunhados tomaram a frente para resolver as questões burocráticas. Um deles é funcionário da prefeitura e conseguiu assistência funerária.

O outro agradecia pelo bom tratamento no hospital de campanha do Subúrbio. Depois de confirmado o óbito, foi muito rápido. Tudo resolvido com trocas de mensagens com a funerária e o cemitério. Duas horinhas. Talvez três. E dois minutos para a despedida. Enterro express. Sem choro, nem vela. Em dois minutos não se mastiga nem um bife, quem dirá digerir o luto de uma vida.

Não perguntei quanto tempo André e a esposa  ficaram casados. Mas, naquela fisionomia pela metade e em silêncio, naquelas pupilas que não sabiam para onde olhar, tinha uma dor que vai levar anos para se tornar saudade. Se o amor não respeita tempo, o luto menos ainda. É possível que a falta de um adeus decente intensifique sua dor. Torço para que a ficha dele caia logo.

Durante a despedida, André, atônito, segurava uma coroa de flores. Ficou calado o tempo inteiro, enquanto os cunhados soltaram algumas palavras de fé. “Aí é só o corpo. O espírito dela já ganhou o céu”. A coroa de flores quase fica do lado de fora. Foi empurrada com pressa antes da tampa da carneira ser fechada.

Edvaldo, o agente funerário que tem transportado uns oito corpos todos os dias, se mostrou sensível ao momento. “Meus sentimentos, pessoal”. Somente após a “cerimônia”, diante de nova provocação minha, André murmurou. “Muito triste”. O cunhado emendou. “Muito triste ter que ser assim”.

Desculpe, André. Te peço desculpas em nome de todos os jornalistas que tiveram que expor a dor de algumas das mais de 41 mil famílias brasileiras. Eu não tinha noção do cenário devastador que estava lá fora. Em casa nos últimos 70 dias, sem pautas em cemitérios ou hospitais, minha angústia mais próxima era assistir o Jornal Nacional, além de duas semanas de ansiedade nas quais uma irmã se recuperava de sintomas leves do coronavírus.

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